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COVERSAS DO ALÉM
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Isto É, edição nº 1831, 08/11/04 |
No bicentenário de nascimento de Allan Kardec, super-best-sellers e outros projetos curiosos colocam o espiritismo na ordem do dia
No ano do bicentenário de nascimento do pesquisador francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, conhecido também como Allan Kardec (1804-1869), o codificador das doutrinas espíritas, o Brasil dá sintomas de estar sendo tomado por uma onda rica. Por sua carga de polêmica e mistério, ela desafia a credulidade dos crédulos e o ceticismo dos céticos. Poucas vezes nos últimos tempos os assuntos relacionados ao espiritismo e a suas variações tiveram tanto espaço nas agendas do País. São lançamentos de todos os tipos, simpósios, congressos, livros, minisséries, documentários e até um longa-metragem, que será produzido pela Lumière. E a locomotiva desse movimento, que colocou essa doutrina espírita na ordem encantada do dia, é um fenômeno editorial do outro mundo: espantosos 175 mil exemplares de dois livros do jornalista Marcel Souto Maior, As vidas de Chico Xavier e Por trás do véu de Ísis – uma investigação sobre a comunicação entre vivos e mortos, vendidos nos últimos 12 meses. O primeiro livro é a biografia de Francisco Cândido Xavier, o brasileiro considerado o maior médium sensitivo do mundo em todos os tempos. Nascido numa família pobre de Pedro Leopoldo (MG), em 2 de abril de 1910, filho de pais analfabetos, Chico tinha a mediunidade mecânica, aquela em que o espírito faz o mediador escrever independentemente de sua vontade. Essa escrita foi definida por Allan Kardec como preciosa, por afastar dúvidas sobre o teor da mensagem. Chico dedicou 74 de seus 92 anos ao trabalho espiritual. Vendeu mais de 20 milhões de exemplares dos 412 livros que psicografou, mas não ficou com um centavo – doou toda a renda para instituições de caridade, num ato registrado em cartório. “Não escrevi nada – ‘eles’ escreveram”, dizia. Quando havia frustração porque as mensagens não vinham, sentava com os visitantes, os consolava e, às vezes, chorava com eles. “Infelizmente, o telefone só toca de lá para cá”, explicava. “Foi o maior. Sua grandeza impossível de ser dimensionada abriu caminho para que todos nós pudéssemos ser tratados com dignidade”, resume o médium Robério Alexandre Bavelone, o Robério de Ogum. “Sou apenas um radinho de pilha. O Chico era a Embratel”, diz o psicógrafo Celso de Almeida Afonso, em Por trás do véu de Ísis. Chico morreu no dia 30 de junho de 2002, mesmo dia da conquista do penta na Coréia/Japão. Até agora, 35 mil exemplares de As vidas editados pela Rocco e 120 mil retirados dos fornos da Planeta foram vendidos. Para se ter idéia da dimensão do feito, uma tiragem vendida de cinco mil exemplares é considerada bem-sucedida no Brasil. Se fosse CD, a obra teria emplacado o disco de ouro (100 mil exemplares) e estaria caminhando, na velocidade vertiginosa da psicografia, rumo aos 250 mil da platina. O segundo livro, Por trás do véu de Ísis, uma reportagem de fôlego com casos impressionantes de mensagens psicografadas e de outras notícias do mundo de lá, trilha o mesmo caminho. Lançado há apenas dois meses, teve 30 mil exemplares impressos logo de cara. Desses, mais de 20 mil já evaporaram das prateleiras. Souto Maior descobriu histórias capazes de gerar impacto e comoção. ISTOÉ selecionou algumas delas, contadas aqui pelas personagens descobertas pelo autor. Os direitos de As vidas já foram vendidos à Lumière. Em parceria com a Globo Filmes, será transformado num longa-metragem, que deverá ter suas filmagens iniciadas em 2005, e depois numa minissérie. Por trás do véu de Ísis, por enquanto, está negociado para ser a base de um documentário. Aliás, um fato curioso chamou a atenção recentemente. Na quinta-feira 28 de outubro, o deputado federal Luiz Carlos Bassuma (PT-BA), kardecista, incorporou uma entidade em plena Câmara dos Deputados, na presidência da sessão. Há outros livros importantes na nova safra. Um deles é O grande mediador – Chico Xavier e a cultura brasileira, do antropólogo Bernardo Lewgoy. Mas a maior parte das atenções está, sem dúvida, voltada para os dois best-sellers de Souto Maior, um carioca de 38 anos com a carreira profissional marcada pelo rigor e solidez. Formado na PUC-RJ, foi correspondente do jornal Correio Braziliense no Rio de Janeiro e trabalhou na sucursal carioca de O Estado de S.Paulo. Foi subeditor do Caderno B e da revista Programa, ambos do Jornal do Brasil. Na tevê, chefiou uma das editorias do Fantástico, da Rede Globo, e, como editor executivo, ajudou a implantar o projeto do canal de notícias Globo News. De volta à Globo, agora como roteirista, ajuda a criar a programação dos 40 anos da emissora, para 2005. Nem precisaria ser o cético que é para pisar com credibilidade no terreno movediço das causas espirituais. Nesta entrevista a ISTOÉ, ele explica como abordou o tema e relata episódios em que esteve envolvido em mistérios.
ISTOÉ – Como foi para um cético mergulhar no universo da espiritualidade?
ISTOÉ – O primeiro partiu de uma mentira sua para Chico Xavier, não?
ISTOÉ – E o caso da Tia Lourinha...
ISTOÉ – E aí?
ISTOÉ – Bom, o outro projeto tomou o rumo da gaveta...
ISTOÉ – Depois de tudo isso, ainda dá para se manter cético? |